O Na La7a teve a oportunidade de conversar com Akira Ribeiro, criador de Submersive Memories e ouvir um pouco mais sobre a origem do jogo. Confira a entrevista na integra.

P1: O período militar é muito abordado no cinema nacional, mas acredito que seja a primeira vez que vi nos games. De onde surgiu essa ideia?
A inspiração inicial veio do jogo Control (Remedy) em que um departamento do governo estadunidense trata de assuntos paranormais. E apesar de Control tratar de coisas totalmente fantasiosas e absurdas, uma das coisas que mais me pegou (de forma ruim) foi essa percepção quase ingênua de um departamento governamental que está lutando para proteger o mundo. Do ponto de vista Latinoamericano, não há nada mais absurdo do que imaginar um exército que se importa em proteger o povo. Aí o cenário se desenvolveu à partir de uma simples pergunta: “O que teria acontecido se o governo da ditadura militar tivesse encontrado um evento paranormal?”
P2: Ditadura e espiritismo não é uma combinação muito comum de ver por aí. De onde veio essa ideia?
Uma das características principais de jogos de survival horror (e terror em geral) é encontrar bilhetes, anotações e recados de pessoas que foram vítimas da ameaça de seus respectivos jogos. Mas isso iria contra aos acontecimentos reais da nossa história, visto que documentos foram queimados e vítimas da ditadura nunca encontradas. A mediunidade da protagonista veio como uma solução para se comunicar com os falecidos que não puderam contar as suas histórias de outras formas.

P3: A premissa de Submersive Memories é bem original. É uma história real, relatos de pessoas que passaram por esse período? O quão pessoal é essa história?
Em respeito às vítimas da ditadura, nenhuma história do jogo utiliza nomes reais, mas praticamente todas elas são inspiradas em pessoas do mundo real. Felizmente não há ninguém na minha família ou círculo de amizades que tenha sido vítima, mas depois de horas assistindo vídeos de relatos dos sobreviventes, senti que deveria recontar algumas dessas histórias dentro do mundo do jogo.
P4: Enquanto jogava, eu vi muitos elementos que me lembraram o livro 1984 de George Orwell. Foi uma referência planejada?
Na verdade eu nunca me atentei a qualquer conexão com 1984. A maior parte dos elementos de construção de mundo em Subversive Memories vem de referências do mundo real. Pôsteres, manchetes de jornais, livros e até documentos vem de acervos de museus nacionais e memoriais da ditadura, por mais absurdo que pareça. Mas a semelhança com 1984 não me surpreende, visto que o regime militar sempre seguiu ideais totalitaristas e ultra-nacionalistas.

P5: O jogo tem muitos elementos que lembram os clássicos jogos de terror, principalmente os primeiros Resident Evil. Qual foi a sua inspiração para Submersive Memories?
Em termos de game design, Resident Evil 1 e 2 (PS1) foram uma das inspirações mais fortes. Porém, jogos modernos como Signalis e Crow Country também serviram de base para entender como adaptar alguns elementos que jogos modernos de survival horror abandonaram, como o controle de tanque por exemplo.
P6: Aproveitando, conta pra gente como foi a sua infância, jogos e filmes que marcaram esse período da sua vida.
Tive o privilégio de ser uma dessas crianças que ganharam um console de videogame usado de algum tio que voltou do Japão nos anos 90. Tive primeiro um Famicon e um Gameboy (tijolão). Dali em diante já entendi que minha mídia favorita eram os videogames e até hoje continua sendo. Sempre curti muito jogos da Nintendo, mas tive consoles de praticamente todas as grandes empresas e hoje prefiro PC simplesmente pela maior acessibilidade a títulos mais antigos.

P7: Você tem planos para expandir essa história com DLCs ou novos jogos ou já está partindo para um novo projeto?
Não. Subversive Memories é uma história fechada e eu não tenho a intenção de continuar escrevendo nada sobre Renata nesse período histórico. Talvez eu faria outro jogo de terror, mas definitivamente não seria “Subversive Memories 2”. Já tenho ideias para um próximo projeto, mas tudo depende de como o Subversive for recebido pelo público e também em questão de vendas.
P8: Vai trazer o jogo para alguma exposição no Brasil como a Gamescom, BGS ou algum outro evento?
Não tenho essa intenção agora. Apesar de eu gostar muito de participar de eventos, jogos de terror não são exatamente os melhores de se apresentar em eventos, onde o público tem mais dificuldades de se concentrar do que se estivesse jogando em casa, por exemplo. Mas quem sabe, se rolar algum convite legal, talvez eu vá sim.
P9: O período de ditadura é muito abordado nos filmes e séries no Brasil e está em alta, você tem planos para adaptar a história de Subversive Memories para outra mídia?
Eu acho interessante que o Subversive Memories esteja saindo agora, logo depois de termos filmes brasileiros excelentes que se passam na ditadura. Mas na verdade foi tudo uma grande coincidência. O jogo já estava em desenvolvimento desde abril de 2023 e eu nem imaginava que esse cenário estaria em alta hoje em dia. Mas voltando a pergunta, eu não tenho planos de adaptar o jogo para outras mídias, principalmente pela minha capacidade como desenvolvedor de jogos, que já é limitada comparada a outros colegas. Porém, eu ficaria muito feliz de ver o Subversive ser adaptado para quadrinhos em algum momento. Mas claro, isso depende muito mais de outros artistas do que da minha vontade em si.
Jornalista por formação e gamer apaixonado de nascimento. Comecei minha paixão no polystation, passei por vários consoles, mas o que mora no meu coração é o PS4 e o PS Vita.
Minha paixão me levou a fundar o Já Joguei em 2020 e posteriormente o Na La7a em 2024 com apenas objetivo, manter vocês sempre atualizado de tudo que acontece no mundo dos games desde noticias, review e tutoriais.



